Satisfeita, Yolanda?

Uma vida impressionista

como procurar coisas que não existem

uma das coisas que mais vão me fazer falta quando os dias de home office acabarem é deslizar pelos quartos e corredores do apartamento usando meias.

outra é dançar como se ninguém estivesse olhando.

digo “como se ninguém” porque outro dia olhei pela janela e a vizinha do prédio ao fundo estava me olhando com uma expressão imperscrutável.

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* * *

a casa da minha mãe tem um monte de cachorros e pelo menos um gato.

os cachorros fazem coisas que me parecem completamente abobadas e eu falo “mãe, olha os cachorros?!”. ela olha e fala que é assim mesmo, que é normal. o gato também.

acho que abobada sou eu no tocante a bichos domésticos.

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* * *

eu estou acostumada a reciclar o lixo, mas na casa da minha mãe tem três lixos diferentes. aí eu me confundo.

fiz uma sopa e joguei as cascas de batata, cenoura e mandioquinha na compostagem. separei o saquinho plástico dos legumes e botei no reciclável. e os guardanapos sujos foram para o terceiro lixo.

aí fiquei olhando pro restinho de pipoca sem saber o que fazer.

ainda não sei qual seria o certo, mas não botei na compostagem porque depois eles vão espalhar isso lá fora, para servir de adubo, e se algum desavisado passar vai achar que fizeram um despacho no quintal.

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* * *

a casa da minha mãe sempre me causa algum tipo de assombro.

na cozinha, encontrei uma quantidade de alho suficiente para abastecer minha casa de temperos por cerca de dois anos e meio.

na despensa, um volume de caixinhas de gelatina que lá em casa durariam um semestre.

e, quando eu abro a gaveta da pia, vejo o descascador de legumes que eu conheço antes mesmo de me conhecer por gente, um presente que ela ganhou da filha de uma vizinha lá da vila alpina quando se casou, e que eu usava para descascar batatas e cenouras quando a gente brincava de ofélia e eu era a ajudante lá no sobrado do bairro assunção.

um descascador de legumes com 36 anos, dois quilos de alho e um estoque de gelatina, três cachorros agindo de forma estranha e três lixos diferentes, essa é a espantosa contabilidade da casa da minha mãe.

letra & música

una con un paisaje
inolvidable viaje
— el álbum, aterciopelados

eu fui aprender espanhol por causa de uma música.

a coisa que mais me impressionou em espanhol é que paisagem, viagem e árvore são todos substantivos masculinos, apesar de tão parecidos com português: el paisaje, el viaje e el árbol.

a coisa mais difícil em espanhol é colocar o N no fim de (algumas) palavras, porque sempre escapa um M. E também usar o Y quando a gente tem aquele hábito incorrigível de botar um E: foto en mi cabeza Y en mi billetera.

a minha palavra favorita em espanhol é reloj, que fica naquele sutil limiar entre o parecido e o nada a ver com português, especialmente quando falado — significa relógio. 

a coisa mais fácil em espanhol (depois que o ricardo me ensinou) é abrir mão do som do Z. Seja Z, seja S, pronuncie tudo como Ç e tudo vai ficar bem. por isso, não fale buenozaires. eles vão perceber na hora que você é gringão.

* * *

quello che non ho
è quel che non mi manca
— quello che non ho, fabrizio de andrè

eu fui aprender italiano por causa de uma música.

a coisa que mais me impressionou em italiano é o verbo guadagnare, que significa uma coisa E TAMBÉM O EXATO OPOSTO DELA.

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vt 1 ganhar. 2 lucrar. (…) vpr 5 levar (prejuízo).


a coisa mais difícil em italiano é ter certeza de que você não está escrevendo omicidio ou omogeneo errado, mesmo sem o H. ok, conjugações e tempos verbais que não existem em português, mas usam palavras de raízes tão parecidas, também são difíceis.

uma das minhas palavras favoritas em italiano, veja só, é orologio.

a coisa mais fácil em italiano é pegar a entonação. é só juntar as pontinhas dos dedos e falar com bastante ênfase MA CHE!

(e a coisa mais divertida na intersecção do português e do italiano é la divina increnca, do juó bananére. se não conhece, recomendo fortemente que procure saber).

* * *

ainda estou tentando me lembrar de porque eu decidi aprender chinês.

de qualquer maneira, passou.

to where i feel at ease

"i wanna go
oh baby you know
to where i feel at ease”
— constantin, seminal

a semana teve dois eventos que duraram muito mais que seus momentos (com o perdão da rima). o aniversário da minha irmã mais nova e o show pré-hiato-indeterminado de uma das minhas bandas preferidas.

* * *
a minha irmã mais nova nasceu quando eu já tinha 17 anos. ela fez 19 quinta agora. e eu tive o prazer de almoçar com ela, meu pai e meu irmão caçula no dia.

todo mundo diz que a gente se parece, mas eu acho ela muito mais bonita.

além de linda, ela é uma pessoa incrivelmente educada. ela se preocupa com os outros. ela não quer incomodar. ela serve o pai. ela ouve a mãe. ela fala sem parar e é muito, muito engraçada (mas não sei se totalmente por querer). isso só deixa ela mais amável ainda. tão amável quanto errar um pronome de propósito.

a lara me admira porque eu sou a irmã mais velha e tals, mas não sei se ela sabe que eu também acho ela incrível.

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nos idos de 98 ou 99, por ali.

* * *
o seminal fez ontem a última apresentação antes da viagem do baixista para a china, que deve durar pelo menos um ano.

eu achei o seminal um power trio incrível desde o primeiro show que vi. tenho um cd deles autografado (pelo guitarrista e pelo baixista, porque eu não conhecia o baterista ainda).

tudo isso muito antes de começar a namorar o guitarrista, o que me deixou em uma posição ruim: não podia mais dizer o quanto adoro a banda, e o quanto acho que mais gente devia ver os shows, sem parecer partidária.

perdi o benefício da neutralidade. mas isso também me deu uma posição boa: ganhei a sorte de testemunhar ensaios, sessions improvisadas e meio bêbadas e os processos das composições do ricardo.

estando tão próxima, como fã ou como mulher do guitarrista, não teve como não dar à banda a dimensão adicional de uma espécie de trilha sonora particular da minha vida. e acho que é dessa dimensão que me despeço.

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obrigada, rapazes.

9 fotos que provam que coisas estranhas aconteciam no Darta
9 fotos que provam que coisas estranhas aconteciam no Darta
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f/3
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1/30th
ISO
50
Focal Length
7mm
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Digital Camera DS5MP
9 fotos que provam que coisas estranhas aconteciam no Darta
9 fotos que provam que coisas estranhas aconteciam no Darta
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f/5
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1/50th
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250
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6mm
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9 fotos que provam que coisas estranhas aconteciam no Darta
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9 fotos que provam que coisas estranhas aconteciam no Darta
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1/30th
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100
Focal Length
7mm
Camera
Digital Camera DS5MP

9 fotos que provam que coisas estranhas aconteciam no Darta

na casa da rua dos crisântemos tinha esse vinil e a primeira música era uma das minhas favoritas.

eu adorava, mesmo sem entender que raios de história era aquela da indiazinha que achava uma maçã no mato e NADA ACONTECIA.

levei anos pra entender a genial realocação do mito do pecado original para esse brasilzão de meu deus, desaparecendo assim, de uma só tacada, tanto com o paraíso como com a danação. afinal, ao sul do equador, uma maçã é apenas uma maçã, tem nada não, pode comer.

e sair catarolando kubanacan.

quando eu era pequena e morava no sobrado do bairro assunção, não tinha cd, tv a cabo, internet ou celular.
então a gente ouvia muito vinil.
eu operava o toca-discos. tinha tempo suficiente para, além de ouvir a música, simplesmente ficar olhando o prato girar. e nem precisava ter aquele cirquinho de papelão que veio uma vez encartado num disco do balão mágico ali no meio. eu gostava simplesmente de ver o o disco rodar.
eu olhava bem de perto e via os sulcos, a agulha percorrendo cada um. eu tirava uns pedacinhos de pó que grudavam na agulha e ela fazia uns ruídos, um chiado surdo. aprendi a assoprar, bem forte, para não botar o dedinho.
eu tirava os encartes da capa e ficava lendo as letras.
dejaste abandonada la ilusión que había en mi corazón por ti.
místico clã de sereia, castelo de areia.
quem vê você chegar com tantas cores e vê você passar perto das flores, parece que elas querem te roubar.
e derreteram a taça na maior cara de pau.
eu podia passar horas escutando vinis. os meus, do balão mágico; os da minha mãe, de mpb; os das minhas tias, elis cantando aquele bolerão do joão bosco; os do meu pai, de samba-enredo.
por isso botar um vinil, daquela época ou de agora, me leva direto de volta para a infância. e tem sido uma delícia.
quando eu era pequena e morava no sobrado do bairro assunção, não tinha cd, tv a cabo, internet ou celular.
então a gente ouvia muito vinil.
eu operava o toca-discos. tinha tempo suficiente para, além de ouvir a música, simplesmente ficar olhando o prato girar. e nem precisava ter aquele cirquinho de papelão que veio uma vez encartado num disco do balão mágico ali no meio. eu gostava simplesmente de ver o o disco rodar.
eu olhava bem de perto e via os sulcos, a agulha percorrendo cada um. eu tirava uns pedacinhos de pó que grudavam na agulha e ela fazia uns ruídos, um chiado surdo. aprendi a assoprar, bem forte, para não botar o dedinho.
eu tirava os encartes da capa e ficava lendo as letras.
dejaste abandonada la ilusión que había en mi corazón por ti.
místico clã de sereia, castelo de areia.
quem vê você chegar com tantas cores e vê você passar perto das flores, parece que elas querem te roubar.
e derreteram a taça na maior cara de pau.
eu podia passar horas escutando vinis. os meus, do balão mágico; os da minha mãe, de mpb; os das minhas tias, elis cantando aquele bolerão do joão bosco; os do meu pai, de samba-enredo.
por isso botar um vinil, daquela época ou de agora, me leva direto de volta para a infância. e tem sido uma delícia.
quando eu era pequena e morava no sobrado do bairro assunção, não tinha cd, tv a cabo, internet ou celular.
então a gente ouvia muito vinil.
eu operava o toca-discos. tinha tempo suficiente para, além de ouvir a música, simplesmente ficar olhando o prato girar. e nem precisava ter aquele cirquinho de papelão que veio uma vez encartado num disco do balão mágico ali no meio. eu gostava simplesmente de ver o o disco rodar.
eu olhava bem de perto e via os sulcos, a agulha percorrendo cada um. eu tirava uns pedacinhos de pó que grudavam na agulha e ela fazia uns ruídos, um chiado surdo. aprendi a assoprar, bem forte, para não botar o dedinho.
eu tirava os encartes da capa e ficava lendo as letras.
dejaste abandonada la ilusión que había en mi corazón por ti.
místico clã de sereia, castelo de areia.
quem vê você chegar com tantas cores e vê você passar perto das flores, parece que elas querem te roubar.
e derreteram a taça na maior cara de pau.
eu podia passar horas escutando vinis. os meus, do balão mágico; os da minha mãe, de mpb; os das minhas tias, elis cantando aquele bolerão do joão bosco; os do meu pai, de samba-enredo.
por isso botar um vinil, daquela época ou de agora, me leva direto de volta para a infância. e tem sido uma delícia.

quando eu era pequena e morava no sobrado do bairro assunção, não tinha cd, tv a cabo, internet ou celular.

então a gente ouvia muito vinil.

eu operava o toca-discos. tinha tempo suficiente para, além de ouvir a música, simplesmente ficar olhando o prato girar. e nem precisava ter aquele cirquinho de papelão que veio uma vez encartado num disco do balão mágico ali no meio. eu gostava simplesmente de ver o o disco rodar.

eu olhava bem de perto e via os sulcos, a agulha percorrendo cada um. eu tirava uns pedacinhos de pó que grudavam na agulha e ela fazia uns ruídos, um chiado surdo. aprendi a assoprar, bem forte, para não botar o dedinho.

eu tirava os encartes da capa e ficava lendo as letras.

dejaste abandonada la ilusión que había en mi corazón por ti.

místico clã de sereia, castelo de areia.

quem vê você chegar com tantas cores e vê você passar perto das flores, parece que elas querem te roubar.

e derreteram a taça na maior cara de pau.

eu podia passar horas escutando vinis. os meus, do balão mágico; os da minha mãe, de mpb; os das minhas tias, elis cantando aquele bolerão do joão bosco; os do meu pai, de samba-enredo.

por isso botar um vinil, daquela época ou de agora, me leva direto de volta para a infância. e tem sido uma delícia.

a conquista do oeste

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então acabou que foi isso aí.

uns três mil quilômetros dirigindo um carro com câmbio automático, banco de couro e ar condicionado. ainda assim, acho que eu preferia ter ido de avião. mas parece que road trips ficam melhores conforme o tempo passa (e o saco que é dirigir vai parecendo mais poético com as fotos de estradas sem fim).

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o carro tinha air bag duplo e um enorme aviso, em várias línguas, avisando que APESAR DO AIR BAG ERA MELHOR NÃO BATER. em francês o aviso fica um pouco melhor, porque “air bag” chama sac gonflable e eu não sei se rio desta palavra ou abraço ela.

e lá pela quarta ou quinta cidade, quando eu ainda não tinha decorado qual era o modelo do carro (era um chevrolet e eu vivia confundindo com hyundai; no fim, era um tal de cruze), fui tirar as malas do porta-malas e descobri um interessante dispositivo interno, destinado a permitir que o porta-malas seja aberto por dentro, indicado pelo ícone de um homenzinho pulando e correndo do carro: é um dispositivo anti-máfia, para escapar de dentro do porta-malas!

talvez seja comum, mas eu nunca tinha visto isso e meio que achei engraçadíssimo (provavelmente porque nunca fiquei presa em um porta-malas, senão eu acharia convenientíssimo).

* * *

nessa mesma noite, no deserto, os termômetros davam 113° fahrenheit (45° celsius) enquanto eu comia um sorvete e balançava na cadeira da varanda do quarto, e o ricardo tomava banho depois de xingar a inutilidade daquelas cadeiras de balanço, porque imagina, quem vai ficar sentado num calor de 45° à noite?, (no caso, eu), pois então eu estava lá sentada tomando o sorvete e balançando pra lá e pra cá enquanto seguia um inseto verdinho com o olhar e pensava que “lolita” era, no fundo, uma road novel, lembrando daquele trecho muito impressionante em que humbert vê os insetos sendo tostados pela lâmpada quente numa varanda de algum motel de estrada, tava pensando tudo isso e comendo tipo um eskibon local e olhando o inseto verdinho voador, que por fim decidiu pousar perto do batente da porta, quando de repente uma aranha saiu de trás do batente E MATOU O INSETO, ENROLOU ELE NA TEIA E LEVOU PRA CASINHA DELA.

nunca vou esquecer disso.

* * *

desenvolvi uma intensa relação de sentimentos dúbios pelo espelho de aumento que tinha no banheiro do hotel de las vegas.

o hotel era muito bom. sem dúvida o melhor do rolê, apesar de não ter taças de vinho — coisa que achamos muito louca, mais louca ainda que o dispositivo para escapar do porta-malas por dentro.

e tinha esse espelho de aumento, o que me ajudou muito a aplicar delineador, depois de uns 17 anos sem fazer isso, no dia do casamento. mas também revelou como minha pele está cagada, gsuis, que espelho terrível! mas aí você vira pro lado normal e fica bonita de novo, o que faz você amar o espelho novamente.

agora não consigo decidir se compro um ou não. são muito complicados, esses sentimentos contraditórios. me lembraram um pouco os que eu nutro pelo galvão bueno e pelas sitcoms em geral.

* * *

é bom viajar, é bom estar de volta. o preço é ter saudades de mais lugares.

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about last night

eu, depois de cinco minutos olhando a mesa do fundo do restaurante tailandês: cara, aquela moça ali não podia ser a demi moore, se a demi moore fosse mais nova?

ele, depois de olhar três segundos na direção apontada: *É* a demi moore.

eu: não seja ridículo, não pode ser a demi moore. ela tem 51 anos e a moça aparenta uns 30, no máximo. mas é a cara dela, né?

ele, olhando mais três segundos, disfarçadamente: *É* a demi moore. sério.

eu: não, cara, não pode ser.

ele: mas é.

eu: como você sabe?

ele: eu tô vendo. eu já não reconheci o javier bardem no aeroporto?

eu: não sei como. você já tinha visto o javier bardem, por acaso?

ele: um milhão de vezes, na tv. 

eu: como você sabe que era ele?

ele: porque era a cara dele, não podia ser outra pessoa.

eu: mas você conhece as caras de todas as pessoas do mundo? e se tem alguém que é igual a ele?

ele fez cara de paisagem. continuamos comendo.

e foi só quando a moça de uma outra mesa levantou e pediu um autógrafo para aquela mulher gatíssima — de jeans, camiseta e cabelos soltos divididos ao meio, que jantava na mesa do fundo com duas amigas — que realmente me dei conta: era a porra da demi moore. no restaurante thai cuja conta deu menos de 40 dólares, com bebida, entrada, pratos principais e sobremesa pra dois.

e ainda fechamos a noite encontrando a miley cyrus no caixa da amoeba.

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(mas a demi foi serião).

way out there

você sabe que está viajando há muito tempo quando todas as camisetas já passaram pela repescagem, o nó na sacola de roupa suja não segura mais aquele cheiro esquisito e você tem preguiça de pegar a câmera ao ver um animal selvagem elegantemente pulando a cerca do estacionamento do parque.

* * *

nem é tanto tempo assim, mas é que algumas viagens são intensas. parece que faz uns dois meses que eu peguei o táxi rumo ao aeroporto, com uma escala na feira do pacaembu para um pastel de despedida.

* * *

recapitulando. reencontrei o ricardo. encontrei a vivi. conheci a karen & o stephen. tomei um foguinho com a véia canadense. vi um urso no yosemite. abracei uma sequoia. desci à caverna. dirigimos até o deserto. calor de 47 graus. (tive mais raiva ainda do papaléguas quando vi uma foto do bicho de verdade no jornalzinho institucional do parque. bicho idiota). o deserto é a coisa mais linda, de novo (já tinha sido no rolê chileno de 2012).

cruzamos a fronteira para nevada e casamos em las vegas.

e agora arizona. the canyon was grand, indeed. e aquela musiquinha do filme dos coen não saiu da minha cabeça.

outras coisas que eu quero lembrar, por outro lado, não entram mais. acho que lotou o hd.

* * *

aí você abre a mala e, em um ato de fé (e/ou maluquice), procura uma camiseta limpa.

e encontra. no gift shop.

o segredo todo, enfim, é saber onde procurar.

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all i need

"we got married in a fever
hotter than a pepper sprout”
— jackson, johnny cash & june carter

o lance do casamento começou quando a gente aproveitou as liquidações do memorial day americano pra comprar uma roupa decente, não muito cara e aproveitável depois, para usar no dia do casamento. E sapatos e alianças.

a atendente da macy’s foi muito gente fina e entendeu a estranha demanda de brasileiros que queriam alianças iguais, e não um wedding ring com uma pedra para a mulher + uma wedding band para o homem. ainda deu um desconto extra porque na semana seguinte eles iam baixar ainda mais os preços, mas a gente estava indo embora de san francisco dois dias depois. tranquilizou a gente quando os anéis que eles tinham lá não couberam certinho nos nossos dedos — “the important thing is to have a ring to present. you can have them adjusted back in brasil”. e deu o email dela para mandarmos fotos depois.

chegamos em las vegas oito da noite, depois de passar um dia no deserto em death valley, sob um calor de 40 graus. as roupas do casamento, que viajaram por três parques nacionais depois da compra, estavam completamente amarfanhadas. jantamos pizza decidindo que músicas usar na cerimônia, que seria na manhã seguinte. falei que podíamos escrever os votos. o ricardo se animou. achei que os votos dele iam ficar melhores que os meus (e ficaram). de volta ao quarto, ficamos passando as roupas e baixando as músicas.

a música n. 1 do casamento.

a música n. 2 do casamento.

acordamos, pegamos um bolinho e um café no starbucks e decidimos ir de táxi. quando entramos e dissemos “chapel of the flowers, please” o taxista perguntou “oh, are you getting married?”, e deu os parabéns. contou que vai casar em agosto, com a debbie — “i’m so in love with her”, suspirou. ele tem 62. a debbie, 58. ela é enfermeira de berçário e tem muitas histórias bonitas para contar, segundo o al. e algumas tristes também, como é a vida, ele diz. 

na capela, michelle, a cerimonialista, pergunta se estamos viajando há muito tempo. eu explico que decidimos ir pra vegas só para casar. ela responde: bem, é isso mesmo que as pessoas vêm fazer em vegas: casar, encher a cara e apostar. eu digo que vamos fazer tudo nessa ordem.

o celebrante é um cara enorme e careca chamado jerry. ele não acredita no aquecimento global. mas é um bom sujeito. fala muito mais que a gente na entrevista antes da cerimônia. achei bom, porque eu não quero falar muito. só quero curtir a sensação de casar.

o fotógrafo se chama sean. ele acabou de passar no exame para praticar advocacia aqui. também vai servir como nossa testemunha.

eles me dão uma rosa e espetam outra na lapela do ricardo. ouvimos os acordes de “intervention”. entramos juntos na capela. o celebrante fala umas coisas ótimas. meio óbvias, mas quem é que consegue fazer tudo isso hoje em dia? é bom lembrar.

eu queria que o ricardo fizesse os votos depois de mim, porque eu tinha *certeza* que os dele iam ser melhores. assim ficava numa curva ascendente. mas jerry mandou ele ir primeiro, e na sequência teve que me fornecer um lenço. nunca ri e chorei tanto tão junto.

eu prometi estar sempre com ele, e confessei que era uma promessa fácil, porque é o que eu mais gosto de fazer há sete anos.

trocamos alianças. acendemos uma vela juntos. rezamos. eram quatro pessoas na capela: jerry, sean, ricardo e eu.

saímos ouvindo jimi hendrix. casamos.

tiramos uma foto clandestina enquanto esperávamos o al vir nos buscar. postamos no facebook. fiquei rindo e olhando o céu de las vegas, os aviões subindo. uma aventura que continua. uma aventura que começa. sempre, todo dia, toda vez.

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